Lava Jato: Adivinhem quem estava na cela com Cerveró?

Marcelo Auler

Nestor Cerveró e Edson Ribeiro Câmara dos Deputados 10.09.2014 Foto Gustavo Lima - Agência Câmara dos Deputados

Nestor Cerveró (à dir.) sentiu-se traído pelo advogado Edson Ribeiro que teria entregue copia da delação premiada ao senador Delcídio do Amatal – Foto Gustavo Lima – Agência Câmara

Um novo e importante personagem surge na história do possível vazamento do rascunho da delação premiada do ex-diretor da Área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, que, segundo consta, teria ido parar nas mãos do banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual.

Teoricamente, este novo personagem que o Blog descobriu na tarde de quinta-feira (03/12), não tem o menor interesse naquilo que Cerveró e seus defensores estavam oferecendo à Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília, para poder conquistar algum benefício na sua pena. Mas, tratando-se de quem é, tudo é possivel e até mesmo seu advogado admite que será inevitável investigarem seu cliente.

Cerveró estava na custódia da Polícia Federal do Paraná enquanto seus advogados negociavam com a PGR. sem participação dos delegados federais da Força Tarefa, a delação premiada. Não se trata de um procedimento simples. O acordo é feito em um documento no qual se estipula o que cada parte vai oferecer à outra. Mas, a ele juntam-se os chamados “anexos” que são resumos dos casos que o delator pretende contar. Estes resumos é que são analisados pelos procuradores para se ter certeza de que a delação terá informações novas. Toda esta preparação demora porque o preso é obrigado a escrever o que sabe, passar para seus advogados digitarem e depois apresentarem aos procuradores que podem exigir mais detalhes. É um vai e volta de papel, no qual o preso sempre acrescennta à caneta algo mais do que está digitalizado.

Delcidio do Amaral - Reprodução

Delcidio do Amaral tinha uma popia da delqação de Cerveró impressa e falou de outra con anotações à mão que estaria com o banqueiro André Esteves – Foto Reprodução

Pelo que consta, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) – preso desde o dia 25, na superintendência da Polícia Federal em Brasília -, tinha uma cópia digitalizada de um ou mais anexos. Ela(s) lhe(s) teria(m) sido entregue(s) pelo então advogado do ex-diretor da Petrobrás, Edson Ribeiro, que foi preso ao desembarcar no Rio, vindo de Miami (EUA) no último dia 27.

Na conversa gravada pelo filho de Cerveró, Bernardo, no dia 8 de novembro, em um hotel de Brasília, Delcídio e Ribeiro falam da existência de outra cópia do rascunho da delação que estaria em poder do banqueiro Esteves. Esta, segundo eles, com anotações à caneta, feitas à mão, pelo próprio ex-diretor da Pertrobras. Ou seja, se a copia existe, foi feita de um papel que estava com o preso na custódia da SR/DPF/PR.

Por conta dessa conversa gravada o ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), na sessão do dia 25 de novembro, em que ele levou à 2ª Turma do Supremo a sua decisão de prender todos, desbafou:

“Vem à tona a grave revelação de que André Esteves tem consigo cópia de minuta do anexo do acordo de colaboração premiada assinado por Nestor Cerveró, confirmando e comprovando a existência de canal de vazamento na operação Lava Jato que municia pessoas em posição de poder com informações de complexo investigatório”.

Há, porém, uma questão básica. Pelo que o blog levantou, o tal documento em poder de Esteves até agora não apareceu. Isto foi dito por pessoas próximas a todos estes fatos que estão em Curitiba e confirmado pelo advogado do banqueiro, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Cacai, em Brasília; “ele não tinha documento nenhum, nunca viu este documento, nem tinha o menor interesse no que Cerveró ia ou não denunciar. Foi tudo fala do senador Delcídio do Amaral”, declarou o defensor ao blog.

Conforme explicamos quarta-feira (2/12) na reportagem “Lava Jato: DPF delega investigação do vazamento” é fundamental saber se o vazamento do documento contou ou não com a participação de Cerveró. Aparentemente, ele não teria o menor interesse em dividir este papel com outras pessoas; Afinal, o que estava em jogo eram os benefícios que poderá ter para reduzir as penas que já teve – até hoje, só em dois processos são 17 anos – e ainda poderão vir.  Logo, resta a hipótese de alguém dentro da Polícia Federal ter providenciado a cópia.

Newton Hidenori Ishii pode estar sendo vítima de uma grande injustiça com as acusações de que vazou documentos

Newton Hidenori Ishii pode estar sendo vítima de uma grande injustiça com as acusações de que vazou documentos – Foto: reprodução

Injustiça com o “japonezinh0 bom” – O nome falado até o momento é do agente federal Newton Hidenori Ishii, que ganhou notoriedade por dois motivos:  além de aparecer em diversas fotos escoltando os presos da Lava Jato, tem um passado nebuloso.

  Ele foi acusado de facilitar o contrabando e o descaminho de mercadorias na fronteira com o Paraguai, motivo pelo qual foi preso na Operação Sucuri, a primeira desevolvida no governo Lula, quando a Polícia Federal éra dirigida pelo delegado Paulo Lacerda.

Por conta disso, já foi expulso do DPF em Processos Administrativos Disciplinar (PAD) que acabaram anulados entre outros motivos por terem usado como prova gravações as quais, mesmo feitas com autorização judicial, não eram admitidas em PADs. Sua situação está ainda subjudice o que leva alguns acharem que ele não deveria se expor (ou ser exposto) como tem ocorrido.

Ele, porém, pode estar sendo vítima de uma grande injustiça. Advogados de presos destacam ser o único que olha seus clientes como seres humanos. Foi colocado nessa história pelo chefe de gabinete de Delcídio, Diogo Ferreira, na reunião no hotel em Brasília, no dia 8 de novemrbo, quando disse que o vazamento foi feito “pelo japonês bonzinho”. Bernardo, filho de Cerveró, para incentivar a conversa, concordou: “sim, sim”.

Na quarta-feira (02/12), conforme notícia do site BandCuritiba, através dos advogados do pai, Bernardo encaminhou e-mail aos delegados da Força Tarefa da Lava Jato desculpando-se e explicando que não teve a intenção de “complicar a vida do agente. Que tudo não passou de suposição. E que admira o trabalho de Newton Hidenori Ishii como servidor público”.

Apesar de chefiar o Núcleo Operacional da Superintendência – o que o faz aparecer nas fotos – Ishii não frequenta a a custódia e jamais ingressou em uma cela onde estivesse Nestor Cerveró, conforme o blog ouviu nesta quinta-feira, em Curitiba, de alguém que está naquele ambiente quase que diariamente.

Alberto Youssef recebeu cerveró em sua cela que conta com bens como televisão - Foto: reprodução www.nominuto.com

Alberto Youssef recebeu cerveró em sua cela que conta com bens como televisão – Foto: reprodução www.nominuto.com

Youssef o companheiro de cela – O que ninguém ventilou até hoje é que desde que chegou a Curitiba preso, em janeiro, Cerveró dividiu “aposentos” na custódia com o doleiro Alberto Youssef, um dos primeiros a ser detido nesta Operação Lava Jato. Os dois só se separaram no último dia 18, justamente quando o ex-diretor da Área  Internacional da Petrobrás assinou a deleção premiada e foi transferido para o sistema penitenciário do Paraná. Voltou à carceragem da Superintendência, por questão de segurança, no dia da prisão do senador Delcídio, do banqueiro Esteves e do chefede gabinete, Diogo. Hoje divide cela com o pecuarista José Carlos Bumlai, preso desde o último dia 24.

Por ser delator premiado, a situação de Youssef é confortável em toda esta Operação.

Seu próprio advogado Antônio Augusto Lopes Figueiredo Bastos, admite que a situação do cliente não é das piores: “ele está na praia, enquanto os demais estão no mar se debatendo com os tubarões”.

Coluna de Fabio Campana, em Cuiritiba, republica nota do Painel da Folha sobre a descoberta do celular na cela de Youssef em julho de 2014

Coluna de Fabio Campana, em Cuiritiba, republica nota do Painel da Folha sobre a descoberta do celular na cela de Youssef em julho de 2014

Parlatório quebrado – Com autorização judicial, segundo Figueiredo Bastos, o doleiro desfruta de televisão na cela e outras regalias. Mas já criou problemas também. Não foram poucos. No ano passado, durante uma crise, com uma cadeira quebrou os vidros do parlatório, ambiente onde os advogados falam com seus clientes presos, sem contato físico.

O incidente deveria ter sido registrado e, segundo alguns delegados, o doleiro indiciado em flagrante por dano ao patrimônio público. Mas nada foi feito e quando um policial da Corregedoria local cobrou do delegado de plantão uma justificativa para não ter feito o flagrante, acabou afastado da função. Figueiredo Bastos, porém, diz que ele arcou com todo o prejuízo causado.

Em julho de 2014, descobriu-se que ele estava usando um celular na cela. O fato foi noticiado no Painel da Folha e republicado na coluna Fábio Campana, no Paraná. Um trecho da nota dizia:

“Alô, doleiro – A Polícia Federal descobriu que o doleiro Alberto Youssef, preso na
operação que apura desvios na Petrobras, conseguiu usar um celular atrás das
grades. Os investigadores acreditam que ele fez as ligações, de dentro da
carceragem em Curitiba, para ocultar provas do caso. Foram identificados cinco
suspeitos de receber propina para permitir o uso ilegal do telefone. Eles estão
lotados no setor de custódia da PF paranaense e serão investigados por crime de
corrupção passiva.
Na mira – A delegada que apura o uso do celular pediu ontem, em ofício sigiloso,
“levantamentos detalhados” com o endereço, o patrimônio e os “principais
relacionamentos” dos cinco funcionários da carceragem.
Alvos – Os investigados são um agente da Polícia Federal, três guardas
municipais e uma funcionária terceirizada. A delegada ainda não sabe se todos
colaboraram para a entrada do telefone” (…)

O  principal suspeito da entrega do celular, segundo muito policiais ouvidos pelo blog, era o antigo carcereiro Paulo Romildo Rosa Filho, o “Bolacha” . Ele, como noticiamos também em “Lava Jato: DPF delega investigação do vazamento” já foi acusado, por familiares de presos, de ter cobrado propina dentro da carceragem.

Mas, as investigações da propina e com relação ao celular não foram adiante. A delegada encarregada da apuração, teria alegado que o noticiário atrapalhou seu trabalho e começou a  investigar quem tinha vazado a informação.

Hoje, como todos sabem, com um celular é facílimo se fotografar qualquer coisa – inclusive documentos – e remeter a foto para quem se desejar. Se Youssef voltou a ter celular na cela não se sabe. Seu advogado garante que não. Diz ainda que o cliente não teria o menor interesse na deleção premiada de Cerveró. Mas admite que será inevitável que ele seja investigado. Torna-se, portanto, um novo personagem no misterioso vazamento que surpreendeu os ministros do STF.

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